Não me entregue suas conclusões precipitadas
Não me aponte o que eu mesma te segredei
Por favor, não confunda a sua a minha vida
com esta clareira de tempoespaço que se abriu
para estarmos juntas
– ela é maior do que os jogos de viver
Saiba de antemão que sentirá minha falta
na noite mais atípica do ano
E que eu sentirei a sua, como sinto sede
ou saudade do mar
Neste dia, experimente sua solidão
como fazem as crianças
(aterrorizadas em seus mundos de poucos nomes)
E duvide que os teus desencontros não foram
encontros insuportáveis
18.12.09
call it drama
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Isabela Gaia
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18.11.09
fábula
é de minha natureza
caçá-lo
seduzi-lo
com nacos de carne
minha
encerrá-lo na casa
de palha e palitos
ardil
degustá-lo e tomar
lambidas suas
ser provado, envolvido
amá-lo por isso
querer
mais, pedir
mais
conforme o instinto
rói
meus calcanhares
e é tarde e
é hora
abocanho seus
laços de fita
restos de rosas
lençóis empapados
os cílios despertam
no rosto incrédulo
o que posso
fazer?
se é de minha natureza
estraçalhar seus
órgãos
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Isabela Gaia
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7.10.09
carta covarde
A verdade é que estou te esquecendo. Como se esquece de comprar detergente. As lembranças são indomáveis, comportam-se dentro da mente como poeira em facho de luz. Lembro da disposição das pintas principais do seu rosto. Da textura daquela camiseta vagabunda do Pixies. Da sua voz quando gargalha. Não me lembro como é te beijar, o que eu sentia quando te deixava dormindo em minha cama e ia trabalhar. São coisas que decantaram, desceram à garganta, me engasgaram antes de ser digeridas. Difícil precisar o quanto ainda resta para digerir, se tudo vai passar. Eu não devia te contar isso, mas às vezes te culpo: quando eu tiver de renunciar finalmente a você, terá sido por uma escolha inicial sua. Me pergunto se você realmente compreende essa balança. Me pergunto se era meu papel ter dito alguma coisa. Em outros tempos eu escreveria um texto subjetivo e insinuador sobre tudo isso. Mas agora o amor me parece essa questão racional, e falo em papéis e culpas e balanças. Não gosto dos nossos jogos de expectativas. Temos brincado sobre o fino arame da comunicação à distância, fazendo vista grossa às farpas. Eu pensei que seu mundo aí estivesse tão pequeno quanto o meu – no outro dia tive de ouvir uma incrível história basicamente sobre alguém ter dado uma volta na quadra e encontrado uma vaga. Mas você me diz que está feliz. E o que você não sabe é que quando isso se confirma, ao menos de um dos lados, o mundo se desinteressa de nós. Nada conspira. E o tempo vaza a conta-gotas pela torneira da cozinha, sobre a louça que se empilhou enquanto eu esquecia.
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Isabela Gaia
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13.9.09
duas vezes duas cenas
1
No meu condomínio ninguém vai à piscina se algum vizinho já estiver lá. O casal do 42 são os novos donos da piscina, chegaram lá hoje às nove da manhã. É domingo, mas eles sabiam que se esperassem um pouco mais, o 22 ia descer com a filharada.
2
Eles estão casados há vinte e dois anos e decidiram reformar o quarto. Ele trabalha em outro estado e vem para casa duas vezes por mês. Eles têm discutido e chorado quando se telefonam. Ela diz que eles estão passando por uma fase difícil. Ele sempre muda de assunto. No quarto agora só falta o papel de parede.
3
A filha morava com a namorada. Depois que se separaram, tiveram de dividir a gata. O padrasto da filha tem alergia a gatos. Então a mãe decidiu comprar um e disse que a filha não podia mais ver a gata antiga, porque o padrasto tem alergia e duas gatas é demais.
4
O terapeuta era além de tudo bonitão. Em dado momento ela apaixonou-se. Ele correspondeu e disse que se separaria para ficar com ela. Nada aconteceu entre os dois até que ela pedisse o divórcio. Então ele cancelou a consulta do dia 20 e continuou casado. Ela nunca mais fez análise e agora só aceitará um príncipe que seja verdadeiro.
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Isabela Gaia
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20:22
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13.7.09
oroboro
Assim, como me sinto enquanto lavo o rosto debaixo do chuveiro quente, como uma euforia misturada à placidez de saber que está aí fora no quarto, à minha espera, com seus pensamentos sonolentos sobre o dia e eu; e eu que noutras vezes lavei meu rosto sob a água quente do chuveiro sem conceber que poderia me sentir assim, e mesmo quando saio e a casa já foi refrescada pela manhã, e o ar está suficientemente úmido para poder senti-lo na ponta dos dedos conforme deslizo até o quarto - lá está você - e nunca uma felicidade como esta me percorreu tão insistentemente dias e meses a fio. É tão estrangeiro ver-me ir ao trabalho com os pés arrastados de ontem e mergulhar no vazio das reuniões de decisão alguma, nos escritórios em que nada (nada) germina, mas mesmo assim ansiar por saber da volta, sonâmbulo em meu movimento pendular, sacudido apenas por uma ou outra vontade de não voltar para ti, lembrando subitamente em seguida que acabei trancando a porta ao sair e vendo túrgida a ideia de deixá-la ali presa enquanto sigo outro caminho. Porque é tão aterrador que eu sempre volte e porque sou o teu bicho arredio que acredita que está dando passos para trás quando volta para casa e você no fundo sabe que vou explodir outra vez em qualquer um desses dias, sacudindo-lhe o corpo miúdo para dizer que estamos muito dependentes um do outro, e a verdade é que estamos mesmo dependentes um do outro, mas você não me escuta. Você só age como quer e como quer que eu aja, e eu preciso te lembrar, arrepiado, que corre o risco de me perder para qualquer uma que caminhar pela rua olhando o céu recortado pelos prédios ou sentir particular ternura pelos ipês amarelos, e eu preciso fugir para encontrar estas mulheres ou para nunca encontrá-las e me perder em mim, descobrir de que é que vivo, acabar por escrever um livro salpicado das coisas que você me contou, e você nunca saberá dar o valor justo ao que fiz, e vai me ouvir distraída com a mão enfiada na salada de tomates enquanto eu digo que voltei à cidade para lhe entregar isso e que lhe devo muito do que sou, mas hoje sou maior do que era naqueles nossos tempos, nossas madrugadas em frente à televisão, procurando pornografia de bom gosto, eu me distraía com suas dancinhas malucas e os jogos em que eu sempre perco, porque você me faz rir.
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Isabela Gaia
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